Sunday, September 25, 2005

Um esforço enorme

A divulgação de resultados como o do PISA é oportunidade para o acusação recorrente de que “a nossa escola não presta” ou de que “a educação vai pelas ruas da amargura” em Portugal.
É bom que se façam estudos como os do PISA, mas é também indispensável que se saibam ler.
O PISA só diz o que diz, não diz aquilo que o leitor dos resultados tem que levar consigo no acto de ler. Por exemplo, não diz que:
Estamos a dar o 12º ano a alunos cujo património escolar da família é a 4ª classe ou, já em menos casos, o 6º ano. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a escolarizar os filhos de uma população que há 30 anos ainda tinha 30% de analfabetos e hoje ainda tem 10%, e tem ainda níveis escandalosos de iliteracia e uma analfabetismo mais ou menos militante contra a Matemática e as Ciências. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a ensinar alunos em cujas casa não há livros, cujas famílias não vão ao cinema e menos ainda ao teatro e muito menos ainda a exposições. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a tentar ensinar alunos de uma sociedade que não tem interesse pelo saber, onde a escola só serve para tirar diplomas, onde o estudo só serve para obter bons empregos, e nunca para ser mais eficaz na vida, tanto pessoal como social. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a “obrigar a aprender” um número elevadíssimo de alunos que dizem declaradamente que «se querem que eu ande na escola, deviam pagar-me», pois «que é que eu ganho com isto?». Quantos países estão a fazer o mesmo?
Temos uma escola que explodiu em número de alunos e, necessariamente, explodiu também em número de professores, mas sem que estes tivessem sido formados para o exercício da profissão, antes foram engraxados para parecem em condições. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a ensinar com escolas regidos por uma legislação que não só não facilita como até dificulta o exercício da função. Quantos países estão a fazer o mesmo?
E podíamos continuar. Mas chega. É mais que suficiente para dizer, ao arrepio do que vai na moda, que a nossa escola tem feito um esforço enorme, gigantesco, e com ele tem conseguido aquilo que nunca tinha sido obtido até agora. Porque, repita-se, é falso que a escola de antigamente fosse melhor do que a actual.O que não invalida, é evidente, que a escola actual tenha grandes problemas e que estes precisam de ser enfrentados. Mas a verdade é que quem parte de falsos diagnósticos, ou de análises preconceituosas, dificilmente pode encontrar um ponto de apoio para uma intervenção que, ainda por cima, muito dificilmente pode saber para onde vai. Porque quem não sabe donde vai, como poderá encontrar o caminho para onde há-de ir?

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